O Agente Secreto é um daqueles filmes que deixam uma sensação curiosa quando os créditos sobem. Não porque ele seja exatamente ruim, mas porque a expectativa criada é bem diferente da experiência final.
Ambientado no Brasil de 1977, no auge da ditadura militar, o longa mergulha em perseguições políticas, conflitos de classe e jogos de poder.
Só que, no meio desse cenário denso, o filme acaba seguindo caminhos que podem dividir bastante quem está assistindo.
Um retrato de poder, preconceito e perseguição
Logo nos primeiros minutos fica claro que a história acontece em pleno período da ditadura militar. A repressão política está ali, mas não é o único elemento de violência.
O filme mostra algo importante: muitas vezes a opressão não vinha apenas dos militares, mas também de empresários e figuras influentes que se aproveitavam do sistema.
O personagem interpretado por Wagner Moura vive escondido sob uma identidade falsa. Ele tenta escapar das consequências de um conflito com um poderoso executivo paulista.
Esse antagonista é construído como um retrato bastante ácido de uma elite autoritária: branco, herdeiro de privilégios, misógino, xenófobo com o Nordeste e obcecado com sua suposta herança europeia.
Esse empresário controla setores estratégicos ligados à Eletrobrás e possui conexões políticas que lhe permitem destruir carreiras e instituições inteiras.
Em determinado momento, ele chega a desmontar departamentos acadêmicos apenas por inveja e interesse próprio. É um retrato incômodo, mas muito convincente.
Outro ponto interessante aparece quando o filme mostra o desmonte de instituições no Nordeste, como a universidade onde o personagem de Wagner Moura trabalhava.
A referência histórica é clara. Durante a ditadura, poder e investimento se concentravam no Sudeste, enquanto o Nordeste era tratado com desconfiança e preconceito.
Infelizmente, olhando para o Brasil de hoje, dá até uma sensação de déjà vu.
Há também uma cena breve, mas muito impactante, envolvendo uma mãe que acusa a ex-patroa de ser responsável pela morte da filha.
A sequência evoca uma ferida social profunda do país: a desigualdade brutal entre quem trabalha e quem explora. É uma abordagem tímida, quase silenciosa, mas importante demais.
Um filme visualmente forte
Se tem algo que o filme acerta em cheio é a ambientação. A fotografia é lindíssima e consegue transportar o espectador para o Brasil dos anos 1970 com enorme cuidado visual.
Cada detalhe ajuda a construir aquele mundo: roupas, cenários, carros, cores. Tudo parece cuidadosamente pensado para reforçar a atmosfera da época.
Recife também ganha bastante espaço na narrativa. O filme faz várias referências culturais à cidade, o que é muito interessante para quem conhece esse universo.
Por outro lado, algumas dessas referências acabam soando meio soltas para quem não tem esse contexto.
Um exemplo curioso é a famosa lenda urbana da “perna cabeluda”, que surgiu no Recife durante os anos 1970. O filme incorpora esse elemento de forma estilizada, quase como uma sequência meio “tarantinesca”.
Visualmente, causa estranhamento. Para quem não conhece a origem da história, parece apenas um momento aleatório, — e eu mesma só fui entender a referência depois de pesquisar.
Um simples diálogo explicando que aquela narrativa poderia ser usada para desviar a atenção da corrupção e da violência política já ajudaria bastante a contextualizar.

Quando a história parece que vai… mas não vai
Apesar dos pontos fortes, a execução da trama me deixou com uma sensação estranha.
O filme é longo e bastante lento. E eu não tenho problema algum com filmes longos. O problema aparece quando tenho a impressão de que a história poderia ter sido contada em bem menos tempo.
O enredo frequentemente parece caminhar para algo importante, mas para no meio do caminho.
Existe um núcleo de personagens que vivem em uma casa que abriga refugiados políticos. A narrativa faz você se apegar a esse grupo quase como uma pequena família improvisada. Só que, no final, esse arco praticamente não leva a lugar nenhum.
Os assassinos contratados para matar o personagem de Wagner Moura, interpretados pelos ótimos Gabriel Leone e Roney Villela, também aparecem de forma distante, quando poderiam ter mais destaque. Eles parecem perigosos, mas acabam quase irrelevantes na trama e ainda terceirizam o serviço.
O resultado é um thriller que, curiosamente, não gera tensão. Em vez disso, o filme parece ficar preso entre um limbo de drama e o mistério sem abraçar totalmente nenhum dos dois.
E tem ainda um detalhe que me deixou genuinamente indignada.
O filme se chama O Agente Secreto.
Só que… não tem agente secreto.
Eu entendo perfeitamente que espionagem pode ser retratada de maneiras diferentes, mais políticas ou psicológicas, mas assisti com a expectativa de encontrar um thriller de espionagem brasileiro.
O que recebemos foi um drama político contemplativo que às vezes parece um thriller, às vezes parece um mistério, e que no final deixa a sensação de que o tal agente secreto resolveu tirar férias no meio do roteiro.
No fim das contas, talvez essa seja apenas a impressão de uma espectadora comum. Não sou crítica de cinema, nem especialista. Meu olhar é sempre mais emocional do que técnico.
Para mim, cinema é principalmente sobre aquilo que a história desperta enquanto estamos assistindo. E O Agente Secreto acabou me deixando com a sensação persistente de que algo muito interessante estava prestes a acontecer, mas ficou no “quase”.




