Lost Records: Bloom & Rage, lançado em 2025 pela Don’t Nod, foi uma experiência que me marcou profundamente na primeira vez que joguei. Mas foi só agora, revisitando em um momento bastante oportuno e com outro olhar, que percebi o quanto essa história ainda tinha para me dizer.
E, sinceramente, poucas coisas são tão especiais quanto voltar para um jogo e descobrir novas camadas que antes tinham passado despercebidas.
Uma história que cresce junto com a gente
Na minha primeira jogada, eu já tinha me conectado com Bloom & Rage de um jeito muito íntimo.
Mas revisitar esse universo ao mesmo tempo em que eu lia Hunger Makes Me a Modern Girl, da Carrie Brownstein, guitarrista e vocalista do Sleater-Kinney, uma das minhas bandas favoritas da vida; e Girl Power: The Nineties Revolution in Music, da Marisa Meltzer, fez com que tudo ganhasse uma nova camada de significado.
Riot grrrl é um movimento punk feminista underground que começou no início da década de 1990 nos Estados Unidos, em Olympia, Washington.
Apesar de eu ter nascido em 1989, foi ali pelos meus 14 anos que tive contato com esse movimento. Ele influenciou completamente a forma como vivi minha adolescência e, principalmente, como entendi que eu gostava de mulheres.
As referências musicais como a já mencionada Sleater-Kinney, Bikini Kill, Garbage, Bratmobile, Heavens to Betsy e Team Dresch aparecem no jogo e pegaram muito no meu coração, porque fazem parte da minha vida.
Nesse processo de ler e jogar quase em paralelo, ficou ainda mais claro como Bloom & Rage dialoga diretamente com esse contexto cultural.
Não de forma superficial, mas com uma sensibilidade que realmente entende o que estava em jogo ali: identidade, resistência, pertencimento.
Isso fez com que cada referência, das fitas cassete aos pôsteres colados nas paredes, ganhasse um peso ainda maior.

Escolhas importam muito
Uma das coisas que mais me surpreendeu nessa segunda jogada foi perceber o impacto das escolhas.
Tentando não trazer spoilers, mas, na primeira vez, segui um caminho que acabou impedindo que todas as personagens se reencontrassem no final. E, naquele momento, eu nem tinha dimensão do que estava perdendo.
Já tinha achado emocionante, então parecia suficiente. Mas não era.
Dessa vez, tomando decisões diferentes, consegui chegar a um desfecho em que todas se reencontram. E a carga emocional disso é completamente outra.
É o tipo de cena que fica com você depois que o jogo termina. Que faz você encarar aquelas personagens não só como parte de uma narrativa, mas como pessoas que você acompanhou de verdade.

Nora, escolhas afetivas e identificação
Outro ponto que mudou bastante minha experiência foi o romance.
Na primeira jogada, acabei me aproximando da Autumn. Funcionou bem, mas sempre tive uma sensação de que não era exatamente o caminho que mais combinava comigo.
Dessa vez, segui minha intuição e investi na relação com a Nora. E foi, sem dúvida, uma escolha muito mais interessante.
A construção desse vínculo me pareceu mais natural, mais complexa e, principalmente, mais alinhada com a forma como eu enxergava a protagonista, Swann.
E talvez isso tenha muito a ver com o quanto eu me identifiquei com ela. Uma garota tímida, nerd, quieta, meio desastrada, fora do padrão, gordinha, que se sentia esquisita e tinha dificuldade de interagir com as pessoas.
A paixão dela era fazer vídeos. A minha, na mesma idade, era fotografia. Tirando isso, foi impossível não me ver ali em vários momentos, como se, de algum jeito, a Swann estivesse contando uma versão muito próxima da minha própria história.


Delicadeza nos temas mais sensíveis
Se tem algo que Bloom & Rage faz com muito cuidado, é abordar temas difíceis.
A timidez da Swann, as questões de imagem corporal e toda a trama envolvendo a doença de Kat são tratadas com uma delicadeza rara. Nada é exagerado. Nada parece explorado de forma gratuita.
Na verdade, o jogo faz o oposto: ele respeita o tempo das personagens e de quem está jogando.
E isso fica ainda mais evidente quando certos elementos da história começam a se conectar. Especialmente no arco da Kat, quando algumas revelações fazem com que tudo que veio antes ganhe um novo significado, inclusive o próprio nome da banda.

Atmosfera, trilha e um mundo cheio de detalhes
Visualmente, Bloom & Rage tem uma atmosfera muito cativante. A direção de arte é absurda de caprichada. Eu perdi (de novo) a conta de quantas vezes parei só para observar.
Os objetos espalhados pelo jogo — ingressos, fitas, revistas, pôsteres, grafites — não estão ali por acaso. Eles constroem um mundo coerente, vivo e profundamente conectado com a cultura riot grrrl.
E a trilha sonora continua impecável.
Ela não só acompanha a narrativa, como amplia tudo que você está sentindo. Em alguns momentos, parece até que a música está te guiando emocionalmente.

Tecnicamente, Lost Records: Bloom & Rage não é perfeito
Bem, tecnicamente, Lost Records: Bloom & Rage não é impecável.
Em alguns momentos, percebi um certo delay entre as falas e os movimentos labiais das personagens, o que pode causar um leve estranhamento.
Não chega a quebrar a imersão, mas é um detalhe que aparece o suficiente para ser notado. Ainda assim, está longe de comprometer a experiência.
A força da narrativa, das personagens e da atmosfera é tão grande que esse tipo de questão acaba ficando em segundo plano com facilidade.

Um jogo que muda com você
Rejogar Lost Records: Bloom & Rage foi uma experiência completamente diferente e, de certa forma, ainda mais especial do que a primeira.
Bloom & Rage não é só sobre música, amizade ou descoberta pessoal. É sobre como essas coisas se entrelaçam e moldam quem a gente se torna.
E isso não é algo que se esgota em uma única jogada.
Se você já jogou, vale muito a pena revisitar. E se ainda não jogou, talvez esse seja o momento perfeito, especialmente se, assim como eu, você tem se interessado mais por essas interseções entre cultura, identidade e arte.
Você já jogou Lost Records: Bloom & Rage? O que achou? Conta pra mim nos comentários.




