Girl Power: The Nineties Revolution in Music, de Marisa Meltzer, tenta entender como mulheres ocuparam espaço no rock depois da explosão do movimento riot grrrl nos anos 1990.
Entre análise cultural e memórias pessoais, o livro levanta discussões interessantes, mas também alguns pontos que deixam espaço para debate.
Riot grrrl: mais que música, um movimento cultural
A parte mais interessante do livro é, sem dúvida, quando Meltzer aborda o movimento riot grrrl e como tudo começou.
Um dos grandes méritos da autora é mostrar que riot grrrl nunca foi apenas sobre música. Era um movimento cultural e político que envolvia zines, ativismo, redes de apoio entre garotas e debates abertos sobre temas que raramente apareciam na cultura mainstream.
Para entender por que o riot grrrl foi tão marcante, o livro também contextualiza o cenário do rock antes disso.
Durante décadas, o gênero funcionou quase como um “clube do bolinha”. A ideia de virtuosismo musical, através de solos complexos, álbuns conceituais e performances grandiosas, era frequentemente associada a uma masculinidade artística muito específica.
O mais curioso é que mesmo movimentos aparentemente mais “abertos”, como o glam rock, ainda deixavam pouco espaço real para mulheres.
Embora artistas homens brincassem com ambiguidade de gênero no palco, isso não significava necessariamente inclusão feminina. Em muitos casos, até quando a feminilidade era valorizada esteticamente, ela ainda era mediada por homens.
Revolution Girl-Style Now
É nesse contexto que o punk abre uma brecha importante. Ao rejeitar o perfeccionismo técnico e abraçar o espírito “faça você mesma”, ele ajudou a nivelar o campo de jogo.
De repente, não era preciso ser um virtuoso para montar uma banda. Bastava ter algo a dizer.
Foi nesse ambiente que surgiram figuras como Kathleen Hanna, Tobi Vail e outras integrantes da cena que formaria o riot grrrl.
Além das bandas, elas criaram zines e manifestos para discutir feminismo, sexualidade e a experiência de crescer como garota em uma cultura profundamente machista.
Um dos exemplos mais marcantes disso foi o manifesto “Revolution Girl-Style Now”, associado à banda Bikini Kill. A proposta era direta: transformar frustração em ação coletiva.
As garotas eram incentivadas a montar bandas, publicar zines, ensinar umas às outras a tocar instrumentos e ocupar espaços que historicamente lhes eram negados.
Mais do que um slogan, a ideia era literalmente reinventar o que significava ser garota naquele momento. A própria grafia “grrrl”, com três erres, carregava esse espírito de confronto, quase como um rosnado.
O movimento também abriu espaço para discutir temas que raramente apareciam na cultura pop da época, como abuso, estupro e transtornos alimentares.
Ao mesmo tempo, Meltzer também aponta limitações importantes. Apesar da intenção inclusiva, o movimento era majoritariamente formado por mulheres brancas de classe média, o que acabou levantando discussões sobre raça e acesso dentro da própria cena.

Quando o “girl power” virou produto
Quando o livro entra na parte mais pop da história, a leitura fica um pouco menos empolgante.
Meltzer tenta argumentar que a popularização do termo “girl power”, especialmente através das Spice Girls, ajudou a espalhar ideias de confiança e autonomia feminina para um público maior.
A discussão é interessante, mas nem sempre convincente. Em muitos momentos, o próprio material citado pela autora revela como esse discurso foi rapidamente absorvido pela indústria cultural.
O feminismo virou slogan, camiseta, produto. Algo fácil de consumir, mas nem sempre conectado a uma ação coletiva verdadeira. Isso me lembra, inclusive, uma das minhas músicas favoritas de Sleater-Kinney, #1 Must Have, que diz:
“Bearer of the flag from the beginning
Now, who would have believed this Riot Grrrl’s a cynic
But they took our ideas to their marketing stars
And now I’m spending all my days at girlpower.com
Trying to buy back a little piece of me…”
Aqui podemos levantar uma questão importante: até que ponto o mainstream realmente amplifica um movimento, e até que ponto ele apenas suaviza e vende sua estética?
Essa tensão entre autenticidade, indústria musical e identidade feminina aparece com muito mais profundidade em Hunger Makes Me a Modern Girl, livro de memórias de Carrie Brownstein, guitarrista do Sleater-Kinney.
Vale a leitura?
Para mim, Girl Power: The Nineties Revolution in Music funciona melhor quando está analisando o underground e o contexto político do riot grrrl.
Nessas partes, o livro é cheio de ideias interessantes e reflexões provocativas sobre cultura, feminismo e música. Já quando a discussão se desloca para o pop comercial, o argumento perde um pouco de força.
Ainda assim, a leitura vale a pena.
Mesmo quando não convence totalmente, Meltzer levanta perguntas importantes sobre como movimentos culturais nascem, se espalham e, inevitavelmente, acabam sendo absorvidos pelo mercado.




