Sleater-Kinney sempre foi mais do que uma banda para mim. Carrie Brownstein, em particular, chamou minha atenção desde o primeiro momento.
Quando conheci a banda, eu era adolescente e estava começando a explorar minha sexualidade. Ela foi uma das primeiras mulheres que me fizeram entender que eu gostava de mulheres.
Mas não era só isso. Havia também uma sensação inexplicável de identificação. Ao ler Hunger Makes a Modern Girl, tudo fez ainda mais sentido.
Carrie Brownstein além do palco
Hunger Makes Me a Modern Girl é um livro de memórias publicado em 2015. Inspirado em um verso da música Modern Girl, da própria banda, o livro acompanha sua vida dentro e ao redor da música.
A narrativa começa com Carrie ainda jovem, uma nerd extremamente performática que se candidata a vice-presidente de sua escola primária no estado de Washington.
A história então acompanha sua fuga de uma vida familiar turbulenta para um mundo em que a música se torna um caminho para a autoinvenção, para encontrar uma comunidade e também uma forma de salvação.
Uma das coisas mais marcantes no livro é a timidez de Carrie.
No palco, vemos uma mulher sempre tão confiante, intensa, elétrica, quase intimidante (da melhor forma possível). No livro, ela mostra o outro lado: insegura, ansiosa, querendo desesperadamente pertencer a algum lugar.
A busca por uma “nova família”, por um espaço onde pudesse existir sem pedir desculpas, é muito honesta e muito humana.
A fome criativa dela não nasce de glamour nenhum. Nasce de inquietação, de desconforto, de vontade de ser entendida.
Sleater-Kinney: a formação e a dinâmica da banda
Para quem é fã há anos, os capítulos sobre o surgimento da banda e o processo criativo dos álbuns são fascinantes.
Carrie fala das primeiras formações, da construção do som, do jeito como as guitarras e vozes dela e de Corin conversavam. Não existia uma personagem principal e uma de apoio, pelo contrário, eram perspectivas coexistindo.
Quando Carrie conta sobre o relacionamento que teve com Corin no início da banda, e depois sobre o rompimento, tudo ganha outra dimensão. Saber que várias músicas de Dig Me Out eram sobre Carrie, mesmo quando ela não imaginava, muda completamente a experiência.
Como ela mesma comenta no livro, quem conhecia um pouco do background da banda já sabia disso, o que era o meu caso, mas ver Carrie narrando a história tem um gosto diferente.
Todos os detalhes que Carrie traz no livro ajudam a visualizar melhor a história e criam uma correlação muito interessante entre a vida pessoal delas e a força da banda. As tensões, os silêncios, as letras, tudo passa a ter outro peso.

Rótulos, feminismo e e a indústria musical
Outro ponto forte é a discussão sobre rótulos e feminismo.
A exaustão de ter que responder o tempo todo o que significa ser “uma mulher em uma banda”; a ironia de ninguém nunca perguntar a um homem por que ele está em uma banda só de homens; a tentativa de fugir de categorias como “female band”, “riot grrrl”, “queer”, e a percepção de que negar isso também pode virar apagamento.
Carrie é muito lúcida ao mostrar como a indústria trata mulheres de forma diferente e como essa conversa vira parte inevitável da própria experiência.
Trechos favoritos
Como li o livro em inglês, vou traduzir alguns dos meus trechos favoritos, tentando manter o sentido o mais fiel possível.
“Penso em todas as vezes em que convidei alguém para ir à minha casa e tirei da estante discos da época do ensino médio ou da faculdade, esperando que aquele álbum mudasse a vida da pessoa do mesmo jeito que mudou a minha.”
“O que eu amava era a possibilidade de interpretar papéis, a ambiguidade de gênero, os indícios de sensualidade e bravura, os momentos que fugiam das regras e da estrutura. Me vestir e me apresentar no palco me permitia experimentar identidades diferentes, como se eu pudesse me transportar para a vida adulta, para outros mundos, para características que pareceriam estranhas na minha própria pele e nas minhas próprias roupas — mas não quando eu era outra pessoa.”
“Eu vinha ouvindo Heavens to Betsy todos os dias. Eles tinham uma fita cassete com seis músicas que me intrigava de um jeito que nada antes tinha conseguido. Era uma combinação da voz de Corin Tucker com as letras. (…) O canto era mais alto do que precisava ser — ela sequer precisava de microfone? (…) Mas era a voz que realmente atravessava tudo. Era uma voz que pedia para ser ouvida, mas não implorava. Ela desafiava, confrontava, provocava, e não precisava de resposta de quem escutava.”
Quase todas as músicas de Dig Me Out são sobre mim ou sobre Lance. (…) Bastaria ouvir músicas como One More Hour, Jenny, Little Babies ou Turn It On para perceber que são canções sobre amor e desejo, tanto perdidos quanto encontrados. Mas eu não sabia que nenhuma delas era sobre mim. Na minha capacidade de compartimentalizar e engolir sentimentos, eu simplesmente me concentrava na melodia, nos riffs, em qualquer coisa que não fosse o que estava sendo cantado. E quando eu realmente prestava atenção, era com uma distância quase psíquica. Quem é Jenny? Quem é a pessoa de ‘os olhos mais escuros’ em One More Hour? Certamente não sou eu.”
“Eddie Vedder sempre foi muito gentil com Sleater-Kinney. Eu o conheci em um dos nossos shows em Seattle, em 1998, do lado de fora do Crocodile Café. Eddie chegou e entrou na fila atrás de mim e da Corin. Ele se apresentou e disse que sentia como se estivesse ao lado de Jagger e Richards. Não é o tipo de elogio que uma garota escuta com frequência.”
“Músicos, especialmente quando são mulheres, costumam ser perseguidos pela suposição de que estão sempre cantando a partir de uma perspectiva pessoal. Talvez seja um descuido do público, ou uma suposição cultural muito enraizada de que a experiência feminina se limita ao conhecido, ao doméstico, ao comum. Quando uma mulher canta uma narrativa que não é pessoal, quem está ouvindo precisa reconhecer que ela não está se apresentando como ela mesma. E se ela não está se apresentando como ela mesma, então não é ela quem está nos seduzindo ou nos amando. Nós não podemos “tê-la”, porque não sabemos exatamente quem ela é. (…) A persona de um homem é vista como poder; a de uma mulher a torna menos “mulher”, mais distante e indecifrável e, portanto, ameaçadora. Quando homens cantam músicas pessoais, parecem sensíveis e evoluídos. Quando mulheres fazem o mesmo, parecem convidativas e vulneráveis, ou pior, mesquinhas e cansativas.”
“Recentemente vi uma banda tocando no Saturday Night Live. Basicamente é um cara só, mas ele sai em turnê com mais nove músicos, todos homens. Todos estavam usando camiseta. Se um grupo de nove mulheres aparecesse em um programa de TV nacional usando apenas camisetas, as pessoas provavelmente 1) zombariam delas por não tentarem parecer bonitas, ou 2) achariam que aquilo era algum tipo de projeto artístico. No mínimo, chamaria atenção.”
Palavras finais
Hunger Makes a Modern Girl é visceral, detalhado, às vezes até desconfortável. E é maravilhoso justamente por isso.
Carrie é inteligente, engraçada, crítica, vulnerável quando precisa ser.
A sensação que fica no final é uma só: como é bom ser fã de mulheres como ela.



