Ver o futuro antes de tomar uma decisão parece o sonho de qualquer pessoa indecisa. Em Harmony: The Fall of Reverie, lançado pela Don’t Nod em 2023, esse dom vem com um peso enorme: cada escolha de Polly pode definir qual força vai guiar a humanidade.
A proposta em formato de visual novel tem trilha de Lena Raine, cenários vibrantes e um tabuleiro que revela os caminhos possíveis da história. Depois de quase 15 horas entre Atina e Reverie, ficou claro onde o jogo acerta e onde escorrega.
Do que se trata Harmony: The Fall of Reverie?
A protagonista é Polly, que volta à cidade de Atina depois de anos fora para procurar a mãe desaparecida. Lá, descobre que é Harmony, uma oráculo capaz de enxergar futuros possíveis.
Com esse dom, ela passa a circular entre dois mundos. De um lado, Atina, uma cidade praticamente governada pela Mono Konzern, a MK, megacorporação que controla tecnologia, segurança e o cotidiano dos moradores.
Do outro, Reverie, lar das Aspirações: entidades que personificam valores humanos como verdade, poder, alegria e caos. Cabe a Harmony decidir os rumos de um conflito que envolve as duas realidades. E cada escolha tem um preço.

Uma visual novel com DNA da Don’t Nod
Quem acompanha o estúdio conhece a receita: narrativa no centro, decisões difíceis e consequências que respingam em todo mundo. Harmony mantém tudo isso, mas abandona a exploração em 3D e adota cenas ilustradas com muito texto.
A grande novidade é o Augural, uma espécie de mapa do destino. Nele, Polly enxerga os caminhos disponíveis, quais Aspirações cada escolha favorece e alguns desdobramentos futuros. A ideia é transformar a tomada de decisão em estratégia.
Na teoria, ótimo. Na prática, a história é outra, e falo sobre isso mais adiante.

O que funciona em Harmony: The Fall of Reverie
O jogo acerta justamente onde a Don’t Nod costuma acertar: atmosfera, temas e cuidado com quem está na tela.
Arte, trilha e dublagem
Visualmente, Harmony é um jogo lindo. A direção de arte aposta em um futuro colorido e vibrante, com ilustrações e animações incríveis.
A trilha sonora é tranquila, quase terapêutica, e acompanha bem os momentos mais contemplativos. Já a dublagem é o ponto mais alto da produção: as vozes dão peso e personalidade a falas que, no papel, seriam bem menos marcantes.
Uma história política, do jeito que a Don’t Nod gosta
A trama não é revolucionária, mas é boa. E tem aquele tempero político que o estúdio adora colocar nos seus jogos, o que, para mim, conta muitos pontos.
Harmony questiona o poder das grandes corporações, a vigilância disfarçada de segurança e as tecnologias que vendem conforto enquanto cobram caro em liberdade. Soa familiar? Pois é.
No fundo, é uma história sobre escolhas e sobre como as consequências delas atingem quem decide e quem está por perto. O texto é maduro, bem escrito e vem acompanhado de muito lore para quem gosta de ler cada detalhe do universo.


Representatividade sem holofote
Outro acerto é a forma como o jogo inclui personagens LGBTQIAPN+. Sexualidade e identidade de gênero fazem parte de quem eles são, mas não viram o assunto principal nem um “momento especial” da trama.
São pessoas existindo em uma história, como deveria ser sempre. Inclusão sem cara de cota, sabe?
Onde Harmony tropeça
Se a parte narrativa encanta, a mecânica nem sempre colabora. E em um jogo que depende tanto das escolhas, esse detalhe pesa.
O Augural prometia mais
O Augural é uma boa ideia que entrega menos do que promete. Como o jogo mostra pouco das consequências de cada decisão, escolher raramente parece ter impacto. E clicar em nós com uma única opção dá a sensação de cumprir tabela.
Notei também um efeito colateral curioso. Na hora de analisar os caminhos possíveis, eu acabava me perdendo um pouco da história.
Eu sabia que rumo queria dar à trama, mas gastava um bom tempo descobrindo quais escolhas me levariam até lá. E sem nenhuma garantia de que o resultado seria o esperado.

Um mapa que pede lupa
O mapa é bonito, mas pouco intuitivo e nada lógico. Os símbolos que indicam o que está disponível são pequenos e discretos demais, além de redundantes em alguns pontos.
Para quem não enxerga tão bem e ainda jogo um pouco mais longe da TV, como eu, a experiência vira um exercício de apertar os olhos e dar zoom. A solução seria simples: se algo não foi desbloqueado, bastaria marcar com um X.
O layout confuso também dificulta visualizar o impacto real de algumas escolhas.
Personagens que não cativam
Há personagens bem construídos, mas boa parte do elenco é rasa. É difícil criar apego ou se importar com o destino deles. Alguns são salvos pela dublagem; outros, nem isso.


Pontas soltas no roteiro
Sem grandes spoilers: a MK passa quase o jogo inteiro como uma ameaça inabalável e, de repente, recua sem explicação convincente. Os personagens até comentam que a decisão não faz sentido.
O jogo, porém, nunca esclarece o motivo da desistência. Nem por que a empresa fazia tanta questão de controlar o acesso aos locais de Oxion, para começo de conversa.
Conquistas e repetição
Para quem gosta de fazer 100%, Harmony cobra um pouquinho de paciência.
Não dá para voltar a capítulos ou atos específicos, então cada nova tentativa exige refazer a história desde o início, ou pelo menos boa parte dela. Mesmo com decisões diferentes, várias cenas se repetem.
Vale a pena jogar Harmony: The Fall of Reverie?
Para quem curte visual novels, histórias políticas e o estilo da Don’t Nod, sim. Harmony é lindo, tem uma dublagem excelente e cutuca as megacorporações sem pedir licença.
Só não espere uma mecânica de escolhas tão impactante quanto o Augural sugere. Se você gosta de jogos narrativos com escolhas, prepare a paciência para o mapa e para um elenco que não conquista tanto.
Um aviso importante: o jogo não tem português, nem na interface nem nas legendas. Como tudo acontece por meio de texto e diálogos, é preciso ter um inglês confortável para acompanhar a história sem perder nuances.


Pontos positivos
- Arte vibrante, com ilustrações e animações caprichadas;
- Trilha sonora tranquila e dublagem excelente;
- História madura, com crítica a corporações e tecnologia;
- Representatividade LGBTQIAPN+ natural.
Pontos negativos
- Augural com pouco impacto visível nas escolhas;
- Mapa confuso e símbolos difíceis de enxergar;
- Personagens pouco marcantes e pontas soltas no roteiro;
- Sem seleção de capítulos.
E você, já jogou Harmony? Qual Aspiração ganhou a sua confiança? Conta pra mim nos comentários.






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